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Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

01.Dez.07

DIA INTERNACIONAL DA LUTA CONTRA A SIDA

 

No dia internacional da luta contra a SIDA é fundamental recordar que a SIDA continua a ser uma realidade dos nossos dias e, sobretudo, lembrar a necessidade de mudar comportamentos na nossa sociedade, tanto no que respeita a prevenção, como no que toca a discriminação silenciosa de que são vítimas os portadores desta doença.

A SIDA é uma doença do sistema imunitário causada pela infecção com o vírus HIV (vírus da imunodeficiência humana).

Os vírus não se conseguem multiplicar independentemente, pelo que necessitam de um hospedeiro. No interior das células humanas, este retrovírus utiliza o material genético humano (DNA) para se replicar e aumentar consideravelmente o número de partículas virais.

O HIV infecta as células de defesa do organismo humano, predominantemente os linfócitos T CD4+, que são linfócitos T auxiliares cuja função passa pela coordenação e estimulação de todo o sistema imunitário que fica, assim, afectado.

Existem cerca de 32605 pessoas infectadas com o vírus HIV em Portugal. Há 24 anos foi diagnosticado o primeiro caso de SIDA em Portugal. A SIDA mata 4 pessoas por minuto em todo o mundo.  

 

É, sem dúvida, uma das doenças das quais mais se ouve falar... mas até que ponto a informação é correcta? Até que ponto não existem determinados mitos que prevalecem na mentalidade portuguesa?

Parece-me importante começar por distinguir um seropositivo de um indivíduo com SIDA. Um seropositivo é uma pessoa infectada com o vírus do HIV, mas não necessariamente doente. Quando o sistema imunitário destes indivíduos está muito deprimido (abaixo de determinado nível de linfócitos CD4+) ocorre um colapso do sistema imunitário, que abre o caminho a doenças oportunistas que podem levar à morte do doente. Neste caso temos um indivíduo doente com SIDA.

 

Há uns anos atrás a sobrevida média de um doente com SIDA era de entre 2 a 4 anos. Hoje em dia, graças sobretudo à nova terapêutica retroviral, um doente pode ter uma sobrevida de entre 30 a 40 anos. No entanto, a Medicina continua com os olhos colocados em diversos estudos inovadores, que buscam ansiosamente uma vacina milagrosa.

 

Embora pouco conhecida, existe uma profilaxia pós-exposição. Durante muitos anos ela denominou-se profilaxia pós-exposição ocupacional, já que se destinava apenas aos profissionais de saúde aquando da infecção com material contaminado. Actualmente, esta profilaxia está disponível a qualquer pessoa, apenas nas urgências hospitalares. Consiste num verdadeiro "cocktail" (combinação de vários medicamentos) de tratamento anti-retroviral, que visa impedir a replicação do vírus do HIV. É fundamental que esta profilaxia seja administrada após a exposição ao vírus, no máximo 72 horas após o contacto. O ideal, no entanto, é a administração da profilaxia nas 24 horas após a exposição ao vírus. Os medicamentos têm de ser tomados durante 28 dias, implicando um seguimento médico e análises de controlo. Esta método tem uma eficácia de cerca de 90%.

 

Nunca é demais lembrar a importância da PREVENÇÃO, mas também desmistificar algumas questões muitas vezes associadas a este problema de saúde pública.

Uma das ideias erradas fomentadas acerca da SIDA é a de que apenas afecta determinados grupos de risco (toxicodependentes, homossexuais, ...). Curioso é que esta ideia é, em parte, culpa das próprias campanhas de prevenção que, ao tentarem alertar determinados grupos para o risco de contaminação com o HIV, acabaram por levar outros a considerarem-se protegidos da mesma. Não há grupos de risco, mas sim comportamentos de risco! Prova disso mesmo, é que enquanto o número de infectados com o HIV tem vindo a diminuir entre os toxicodependentes, o mesmo número tem aumentado entre os heterossexuais, sobretudo as mulheres. Actualmente, os heterossexuais são um grande grupo de risco de contaminação pelo HIV. As mulheres casadas com mais de 50 anos têm-se revelado outro grupo de risco, já que devido à relação estável não usam preservativo durante as relações sexuais, e os maridos (infectados em relações paralelas) acabam por transmitir-lhes o vírus. Infelizmente este é o grupo mais complicado e de difícil acesso, enquanto alvo de prevenção. Neste sentido é fundamental mudar mentalidades. Os seropositivos devem ter a consciência do risco de transmissão e o respeito pelos outros para os informarem da sua condição ou, pelo menos (mesmo ocultando a sua seropositividade), tomarem as devidas precauções durante as relações com os parceiros.

 

 

Boa notícia é a redução de 93% da transmissão do HIV por via materno-fetal no nosso país. Isto revela que tem havido um correcto  e eficiente acompanhamento das gestantes e aconselhamento em testes de diagnóstico do vírus.

 

 Têm sido conhecidos alguns casos polémicos relacionados com alguma discriminação contra os seropositivos: estou a referir-me, claro está, aos casos do cozinheiro infectado com HIV que foi despedido e do médico cirurgião, cujo futuro profissional está a ser discutido.

Concordo que todas as pessoas devem procurar formular uma opinião nestes casos, mas é premente que o façam com base em informação correcta.

Isto é, como é que afinal se transmite o vírus do HIV?

O vírus apenas se transmite através do contacto entre fluidos corporais. A nossa pele (se saudável) é uma eficiente barreira contra solutos (mesmo que com alta concentração) de HIV, pelo que se um indivíduo seropositivo se cortar e tocarmos no seu sangue, não há risco de contágio, por exemplo. Existem algumas excepções. É o caso de eventuais feridas abertas que tenhamos. Nesse caso há risco de contacto entre o fluido com partículas virais e o nosso sangue e, consequentemente, risco de contágio. Da mesma forma, certas pessoas com determinadas doenças de pele (que a tornam menos resistente) podem estar mais susceptíveis a este contacto. As principais formas de contágio são as relações sexuais desprevenidas, o uso de seringas contaminadas, a transmissão materno-fetal, as transfusões sanguíneas, ...

 

Por fim, revela-se fundamental prevenir. E a prevenção assume várias dimensões no que à SIDA diz respeito.

Uma prevenção primária (prevenção da contaminação) passa pela sensibilização da população através de duas formas: informação acerca do que é o HIV e a SIDA, como se transmitem, qual a prevalência da doença no nosso país e educação para a adopção de comportamentos preventivos, abolindo práticas de risco. Entre os principais comportamentos de prevenção destacam-se o uso de preservativos nas relações sexuais, a utilização de seringas esterilizadas, a não partilha de objectos de higiene (como escovas de dentes), ...

Esta prevenção visa diminuir o número de infectados com o HIV.

 

A prevenção secundária apela à importância dos testes de rastreio para um diagnóstico precoce. Há uns anos, os testes não identificavam as partículas virais, mas apenas os anticorpos produzidos pelo nosso próprio sistema imunitário (contra as partículas invasoras). Isto levava a que se falasse de um período de janela imunológica de cerca de 3 meses, que consistia no tempo que demorava a eficiência da produção destes anticorpos , de forma a serem detectados pelos testes. Este é o período mais perigoso por dois motivos: o indivíduo não sabe que está infectado e, ao mesmo tempo, corresponde ao período em que ele é mais potencialmente infeccioso (ocorre uma grande replicaçao viral no seu organismo).

Actualmente, este tempo de janela diminuiu consideravelmente (cerca de 15 dias) graças aos testes de 4ªgeração, bastante mais eficientes e que detectam mesmo algumas partículas virais.

 

A prevenção terciária associa-se ao tratamento e à prevenção da evolução da doença, com base no conhecimento da história natural da mesma. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico. Quando obtém resultados positivos no teste, o indivíduo deve procurar um médico infecciologista a fim de proceder a uma prevenção da doença. Como já disse anteriormente, um indivíduo seropositivo não tem, necessariamente, de desenvolver a doença (SIDA), desde que seja tratado e acompanhado pelo clínico. Os tratamentos de indivíduos infectados com o HIV são gratuitos no nosso país.

 

Assim, neste dia simbólico é importante não esquecer que a SIDA continua a ser uma realidade e que é fundamental o desenvolvimento de uma cultura de prevenção, educando a população para os comportamentos preventivos e sensibilizando-a para a importância dos testes de rastreio e diagnóstico precoce da infecção com o vírus HIV.

 

 

 

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